sexta-feira, 13 de junho de 2008

Lose your illusions: vamos todos morrer

Prefácio: estou desovando textos velhos, espero que eles aparentem algum sentido, como aparentaram quando estavam sendo paridos.

Bem ao estilo do Mr. Eko, vou começar do começo. Dizem que Adão e Eva cometeram o pecado original ao provar o fruto da árvore proibida. Todo mundo sabe que isso é uma metáfora, mas é engraçado pensar que ninguém sabe exatamente do quê. O que catso o fruto e a árvore representam? Já ouvi várias versões, não faço a menor idéia de qual seja a verdadeira, mas a minha favorita é aquela que diz que a árvore era a “árvore do conhecimento” e que, ao comer o fruto, Adão e Eva tomam conhecimento de que são mortais. A partir disso, eles tomam para si seus destinos, tentando evitar a morte. Alguns dizem inclusive que essa busca de algo que evitasse a morte criou a ciência.

Me peguei pensando como se vive uma vida sem consciência da morte. A idéia me pareceu irremediavelmente absurda até que lembrei dos animais, que vivem suas vidas exatamente assim, sem saber que morrerão. Essa constatação óbvia me levou a outro estado de espanto: se o animal não sabe que pode morrer, como ele se defende do perigo? Não quero a resposta básica dos genes egoístas, minha trip passa longe da biologia. Como é possível ter instinto de vida, se ele mal sabe o que é vida? Afinal, só conhecemos algo quando conhecemos sua negação. Tendo a pensar que o animal se defende para evitar a dor, que é algo que ele conhece, já que não depende de linguagem ou consciência. Me veio a lembrança de vários gatinhos doentes que vi. Muitos deles estavam bem fraquinhos e se eles comessem podiam se recuperar. Eles ficavam quietos, parados, prostados, não comiam, parecia que queriam morrer. Mas quando tomavam uma agulhada de uma injeção que podia salvá-los faziam um escândalo. Hoje entendo. Os gatos fugiam da dor, e não da morte.

Parece que nós fazemos o contrário, fugimos da morte, e não da dor (e muito menos das dores menores, os incomôdos chatos). Vou dar alguns exemplos que ficaram na minha cabeça. Acabo de voltar da França, onde o fumo foi proibido em todos os bares e restaurantes. Na França! Na França!! Preciso explicar o absurdo que é isso? A TV falava o tempo todo dos milhares de não-fumantes que morrem por causa do fumo passivo. Outro fato curioso que ocorreu na viagem foi ter cruzado com uma amiga muito bacana, cujo pai morreu de câncer. Ela se preocupa muito com isso, pesquisa muito na internet sobre prevenção e descobriu que desodorantes com alumínio podem dar câncer. Aí então ela vai de farmácia em farmácia lendo os rótulos dos desodorantes até encontrar um sem alumínio.


A idéia desse texto não é divulgar uma mensagem “vamos nos drogar, fumar, comer feijoada no café da manhã e tá tudo ótemo”. A medicina é algo essencial e tem doenças das quais ninguém devia morrer mesmo (como diarréia, desnutrição etc). E também sou uma pessoa da ciência, e não da fé. Minha inquietação é a seguinte: por termos consciência e linguagem, sabemos que vamos morrer e temos medo da morte, seja por medo da dor, por apego ou por seja lá o que for. Mas não tem jeito, lose your illusions: vamos todos morrer. Mas nosso medo é tão grande que ele se esgueira e nos invade, guia nosso comportamento sem percebemos. Em vez de nos darmos conta do nosso medo, somos tomados por ele e criamos uma sociedade obcecada pela conservação de algo definitivamente perecível. Fico louca quando leio alguma reportagem sobre velhice em que para dizer que um velho está bem dizem que ele parece um jovem. Então a velhice na real é sempre ruim. Fazemos um monte de estudos para descobrir como viver mais. Descobrimos, por exemplo, que comer pouco aumenta a expectativa de vida. Nosso medo (e também nossa ignorância) nos impede de ver que a pesquisa só diz que se passarmos a vida toda sem aproveitar o prazer supremo que é a boa comida temos uma probabilidade de x% de vivermos mais 5,43 meses. Procuramos culpados para a nossa morte: é o filho da puta do fumante da mesa a cinco metros de distância que está me matando, já que a pesquisa nos diz que quem fica por perto de um fumante tem y% a mais de chance de morrer. Esqueça: nossa chance de morrer é de 100%.

PS: não sou fumante e tenho muito medo de morrer também. Tenho mais medo ainda de que a pessoa que eu mais amo morra antes de mim. Mas isso fica um assunto para outra hora.

2 comentários:

Roberto Wolvie disse...

Olha, acho que até passei um pouco do ponto nesse lance de ver que temos de viver o hoje, não é verdade?

Excelente texto, como sempre. Sua média de qualidade vai bem melhor que a minha.

Bruno disse...

Talvez seja essa a tão procurada diferença entre homens e animais... a consciência da morte. Muito bem observado.

ps.: Não acho que esse texto seja antigo... vc fala de gene egoísta, sei que vc viciou nesse escritor recentemente...