sexta-feira, 27 de junho de 2008

A semana da hipocrisia - Fair play

Você é um jogador de xadrez. Bom, muito bom mesmo. Você nunca perdeu um campeonato e jogar e ganhar são as únicas coisas que você sabe fazer. Os outros se espantam com a sua habilidade, mas você nunca se espantou. Você se vê como um leão. Ninguém comemora quando o leão tráz a caça. Achar a presa, elaborar a estratégia, esperar o momento certo, dar o bote, correr no limite, abocanhar e esperar que ambos os corações - da presa e do caçador - se acalmem. Nada disso é um feito para o leão, ele já nasceu sabendo, bastou apenas ver. Assim é o xadrez para você; natural, intrínseco.
E, justamente por isso, nunca se cobrou. Cobrança é para os fracos, aqueles que nunca sabem se conseguirão ou não. Você sempre consegue, ponto. Revolta é sentimento dos fracos também. Você não suporta aquele papinho de "o juíz me prejudicou", as mil desculpas que as pessoas inventam para justificar porque perderam. Elas perderam porque não eram tão boas, ponto. Elas perderam porque jogaram contra você, ponto.
Mas, sabe-se lá porque, antes do jogo seu coração acelera muito, você acha que todos ouvem, inclusive. E, nesse dia, ao ir para mesa, seu sapato sai do seu pé. No começo do jogo, seu braço (ou seria o seu cérebro?), seu instrumento, treme. Você não é alguém de sucumbir aos maus presságios ou aos maus começos. Então você joga, joga muito. Usa sua melhor tática, aquela de não olhar para o tabuleiro e sim para os olhos do seu inimigo, e vê neles a sua vitória. Mas não. Hoje simplesmente não era o seu dia.
Você é o vice, o segundo melhor, veja que bela merda! E você quer rugir, quer berrar, quer chorar, quer sussurrar. Você quer fugir da inevitabilidade do que está para acontecer: sentir o gosto acre do outro lado. Você se horroriza ao vislumbrar o que virá: sombrancelhas franzidas, sorrisos amarelos, passadas de mão na cabeça, clichês-consolos. Na próxima semana, toda vez que você encontrar alguém sentirá medo de que a pessoa queira saber o que aconteceu, procurar as justificativas que você odeia, ou, pior dos piores, consolá-lo. Cada encontro será tenso, você ficará na expectativa, ela falará ou não falará? Existirá outro assunto no mundo que não a sua derrota?
E se você é mesmo um leão, te sobra uma alternativa. Vá, mate seu inimigo, reaja. Ou, ao menos, chute a canela dele. Mas não, ah não, você terá espiríto esportivo, você será hipócrita. Faça seu sorriso amarelo para a foto oficial. Receba a medalha que certifica seu fracasso, como se você precisasse dela para se lembrar disso para sempre. Aperte a mão do filho da puta, diga parabéns. Nas entrevistas, elogie a capacidade dele, aquele bostinha que deu sorte uma vez na vida, diga que não dá para ganhar sempre. Dentro de você mora a verdade: esse resultado foi causado por um bater de asas de uma borboleta no outro lado do mundo, um acaso, uma fatalidade. Você é um leão e amanhã você estará na savana de novo. Afinal, é só isso que você sabe fazer.

Um comentário:

Bruno disse...

Esse é bem estranho... não acho que algum ser humano possa ser comparado com o leão, só o que deu sorte, normalmente... e revolta não é o sentimento dos fracos, pra mim é o dos fortes.
De qualquer forma, tá bem coerente e bem escrito, só discordo das idéias mesmo :P